Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



No número 7

Luis Fernando Verissimo

As ruas de Paris estão cheias de placas que marcam locais históricos. Em alguns casos, da História recente, como as que dizem “Aqui, tombou pela pátria...” e o nome de um insurgente abatido pelos alemães durante a ocupação da cidade na II Guerra. Mas isso só se fica sabendo pela data. O detalhe de quem abateu o homenageado é omitido, o que poupa os turistas alemães de embaraços retroativos. Também há placas nos prédios onde moravam figuras famosas – inclusive no hotel onde o nosso Dom Pedro II viveu seu exilio.

xx -- xx -- xx

O número 7 da Rue des Grands Augustins, uma rua de Saint Germain que começa na beira do Sena, está devidamente identificada como o prédio onde morou Picasso por um período. A placa é lacônica. Poderia incluir a informação de que na cobertura do mesmo prédio morou o ator Jean-Louis Barrault, que um dos seus estúdio era o ponto de reunião do grupo revolucionário político-artístico Contre-Attaque, que incluía, entre outros, Georges Bataille e André Breton, e que o endereço já era famoso na literatura como o local em que trabalhava o pintor maluco da novela de Balzac Le Chef d’oeuvre inconnu.

xx -- xx -- xx

Mas a maior omissão da placa é a informação de que foi no número 7 da Rue des Grands Augustins que Picasso pintou o quadro Guernica, seu protesto contra a destruição da cidade basca de Guernica pela aviação alemã, na Guerra Civil Espanhola. E deve ter sido lá, durante a ocupação, que – segundo uma história que se não for verdadeira, é uma pena – um oficial alemão em visita a Picasso viu uma reprodução do Guernica e comentou “Ah, sim, foi você que fez isto”, ao que o pintor teria respondido: “Não, foram vocês que fizeram isto”.

xx -- xx -- xx

Toda a feitura do Guernica foi acompanhada e fotografada pela mais nova amante de Picasso, Dora Maar (ou Henriette Theodora Markovith, filha de uma francesa e de um croata, nascida em Paris, criada em Buenos Aires, fotógrafa de talento, pintora e escritora que fez parte do movimento dos surrealistas, conviveu com todos os grandes nomes da vanguarda da época, esteve internada virou mística, morreu em 1997, com 89 anos e mesmo assim conseguiu ser a menos notória de todas as mulheres de Picasso). Dora acabou entrando no Guernica. A imagem da mulher que chora, no canto direito do quadro, é inspirado nela. Durante muito tempo, nos círculos artísticos de Paris, ela foi chamada de “a mulher que chora”. Mas muitos diziam que isso se devia menos ao quadro do que ao que ela sofria como amante do pintor.

Dora influiu no desenvolvimento da pintura de outras maneiras, a se acreditar em Picasso. Ele uma vez explicou as suas figuras distorcidas com um olho só ou dois olhos do mesmo lado da cara dizendo que era assim que ele via o rosto da sua querida Dara Maar quando a beijava. Uma questão de amor e perspectiva.

xx -- xx -- xx

Ler sobre Dora e Picasso – como na matéria da New York Review of Books da qual tirei tudo isto – é ir constantemente se surpreendendo com vislumbres de nomes conhecidos que aparecem em cena rapidamente, como atores famosos fazendo ponta em filme alheio. Foi no apartamento de Dora, antes de morarem juntos, que Picasso escreveu a sua peça Le Désir attrapé par la queue (O desejo agarrado pelo rabo) que nunca foi produzida, mas um dia foi encenada entre amigos, com a participação de Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Dora Maar, o próprio Picasso e outros. Desgraçadamente, não existiam vídeo-câmeras na época... Dora sofreu um colapso nervoso em 1945, quando ele já estava namorando Françoise Gilot, e Picasso pediu ajuda a um amigo, que a internou numa clínica psiquiátrica. O amigo era Jacques Lacan.

xx -- xx -- xx

A série de fotografias que Dora fez de Picasso pintando Guernica revela outra intervenção dela na história da arte moderna. O refletor instalado pela fotógrafa na frente da tela em que Picasso trabalhava é a clara inspiração para a lâmpada acesa que, no meio da composição, eletriza a cena e centraliza o seu clima de pânico e terror.

xx -- xx -- xx

Nos seus últimos anos, Dora Maar entregou-se ao misticismo católico, talvez como purgação final da intensidade da sua vida. Deixou tudo o que tinha para um monastério parisiense, mas houve um problema com o testamento e tudo o que ela tinha, toda a memória e as posses da mulher que chorava, acabou leiloado.

xx -- xx -- xx

A matéria do New York Review of Books é ilustrada com um bico-de-pena de Picasso, feito em 1937, quando os dois já tinham começado a morar juntos no número 7: Retrato de Dora Maar de perfil. Feito a distância, com os olhos nos lugares certos. Ela era linda.


Domingo, 6 de junho de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.